Fotografia Redescoberta Lança Luz sobre Jeanne Duval
A “Dama com Leque” de Manet
Acesse The Conversation para o artigo original na íntegra
Uma fotografia extraordinária, descoberta recentemente, tem trazido novas perspectivas sobre Jeanne Duval, a musa e amante de longa data do poeta francês Charles Baudelaire. Nascida no Haiti, Duval era até então considerada uma figura não fotografada, o que a tornava um mistério ainda maior para estudiosos feministas e pós-coloniais.
A Descoberta das Fotografias
A primeira imagem, um retrato de uma mulher sentada vestindo roupas burguesas elegantes, foi notada na página da Wikipedia em inglês dedicada a Jeanne Duval. A fotografia, impressa em um pequeno carte de visite (cartão de visita fotográfico) datado de 18 de agosto de 1862, havia sido descoberta nos arquivos franceses por uma pesquisadora e documentada online em 2021.
Ao visitar os arquivos, a autora do artigo original, Maria C. Scott, encontrou um segundo carte de visite ao lado do primeiro. Este segundo cartão continha o mesmo nome (“Jeanne”), a mesma data e provinha do mesmo estúdio fotográfico – o Atelier Nadar. No registro de depósito legal, ambos os cartões foram catalogados como “idem” (o mesmo).

Nesta segunda fotografia, Jeanne aparece em pé, em uma pose incomumente rígida. Ela veste um vestido de noite com os ombros à mostra, e seu cabelo liso é adornado com uma simples faixa. A análise digital em alta resolução revelou fortes semelhanças entre as modelos de ambas as fotos, como a linha do cabelo, uma marca na testa e um anel no mesmo dedo, confirmando que se tratava da mesma pessoa: Jeanne Duval.
A Conexão com Édouard Manet
Um detalhe particularmente revelador na segunda fotografia é o crucifixo apoiado na clavícula e os grandes brincos. Joias muito semelhantes são usadas pela modelo no retrato Dama com Leque (1862), de Édouard Manet.

A pose desajeitada e a expressão facial da modelo na pintura de Manet frequentemente foram interpretadas como reflexos das dificuldades e doenças que Duval enfrentava na época. Ela passava por graves problemas financeiros e sofria de paralisia no lado direito do corpo desde um derrame em 1859.
As historiadoras da arte Griselda Pollock e Therese Dolan já haviam especulado que Manet poderia ter trabalhado a partir de uma fotografia ou carte de visite de Duval para criar Dama com Leque. As semelhanças faciais, de expressão e de sombreamento entre a fotografia de Jeanne em pé e os retratos de Manet (tanto a óleo quanto em aquarela) parecem confirmar que Duval é, de fato, a mulher em todas essas obras.
Motivações por Trás das Fotografias
A razão pela qual essas fotografias foram tiradas permanece objeto de debate. É importante notar que Manet, Félix Nadar (dono do estúdio fotográfico) e Baudelaire eram amigos íntimos, e que Duval havia se separado do poeta, aparentemente de forma definitiva, em 1861.
Pesquisadores franceses descobriram recentemente que Jeanne Duval faleceu em um asilo para pobres apenas seis anos após a realização desses retratos. Até então, seu destino final era desconhecido.
Como conclui a autora do artigo, essas fotografias revelam a resistência de Duval a enquadramentos simplistas e atestam sua dignidade silenciosa, oferecendo um vislumbre raro e valioso da mulher real por trás do mito literário e artístico.
Referência
SCOTT, Maria C. Rediscovered photograph sheds light on Jeanne Duval – Manet’s Lady with a Fan. The Conversation, 5 fev. 2026. Disponível em: https://theconversation.com/rediscovered-photograph-sheds-light-on-jeanne-duval-manets-lady-with-a-fan-275051. Acesso em: 28 abr. 2026.

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